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Policial à americana na terra do sol nascente

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Este texto foi publicado originalmente na Take Cinema Magazine dia 17 de Maio de 2017 com o título [Patinho Feio] Chuva Negra (1989) e pode ser lido na íntegra aqui.

 

Nos três primeiros filmes que realizou, Ridley Scott ofereceu ao mundo dois dos mais celebrados filmes de ficção-científica de todos os tempos: Alien — O 8.o Passageiro (1979) e Blade Runner: Perigo Iminente (1982). Podia nunca mais ter completado outro filme e, ainda assim, o seu nome seria celebrado nos anais cinéfilos do final do século vinte. Ao longo de uma carreira de quarenta anos, além destes títulos seminais, tem produzido uma filmografia eclética incluindo épicos históricos e bíblicos de qualidade variável — 1492: Cristóvão Colombo (1992), Gladiador (2000), Reino dos Céus (2005), Exodus: Deuses e Reis (2014) — e alguns sucessos tão distintos como Thelma e Louise (1991), Hannibal (2001), Cercados (2001) ou Perdido em Marte (2015). Ainda assim são muitos os títulos do seu corpo de trabalho menos recordados, ou até menos vistos, que poderiam constar desta rubrica. Quem se lembra de A Lenda da Floresta (1985) ou de Na Vigília da Noite (1987) ou de Escola de Homens (1996)? E que tal o filme que colocou Ridley Scott na «prisão dos realizadores», até à sua absolvição nas arenas romanas, G. I. Jane — Até ao Limite (1997)?

Com o regresso ao universo dos alienígenas com que nos assombrou na recta final da década de setenta, resolvi recordar um dos seus títulos que mais me despertou a curiosidade para revisitar, Chuva Negra (1989). Depois do sucesso, crítico e de público, de Alien — O 8.o Passageiro, Blade Runner: Perigo Iminente foi um desastre comercial. O projecto fantástico que se seguiu, A Lenda da Floresta, com Tom Cruise no principal papel, também não incendiou as bilheteiras. Nesta altura, Ridley Scott desceu à Terra e realizou um thriller policial modesto, Na Vigília da Noite (que por alguma razão vi no cinema quando tinha apenas 10 anos), título que não fez favor nenhum à reputação do realizador britânico. O seu projecto seguinte foi, então, um veículo da Paramount Pictures para Michael Douglas, com o embalo do fresquíssimo Óscar para Melhor Actor ganho por Wall Street (Oliver Stone, 1987).

Nick Conklin (Michael Douglas) é um agente da polícia de Nova York que enfrenta possíveis acusações criminais —os Assuntos Internos acreditam que Nick está envolvido com um colega apanhado num escândalo de corrupção. Num restaurante, Nick e o seu parceiro, Charlie Vincent (Andy Garcia), observam dois homens japoneses a almoçar com gangsters da máfia. Quando outro japonês entra no restaurante, rouba um pequeno pacote sob a ameaça de uma arma, mata duas pessoas e foge, os polícias perseguem-no e prendem-no. O suspeito, um gangster Yakuza chamado Sato (Yûsaku Matsuda), é extraditado para Osaka sob escolta de Nick e Charlie, mas ao chegarem ao Japão os polícias americanos deixam-no escapar.

Chuva Negra é uma das muitas provas ao longo da filmografia de Ridley Scott que suportam a ideia que este é um realizador vistoso que privilegia estilo em detrimento da substância. Ou, colocando a questão de outra forma, é um dos exemplos que demonstra que o realizador tem a capacidade de transformar um bom argumento num filme excepcional, mas que perante um guião medíocre não consegue elevar o material. Quem já viu Scott em entrevistas, ou em documentários sobre os seus filmes, sabe que não lhe falta gravitas, confiança e visão. Mas neste caso, a estética do antigo realizador de publicidade parece reforçar o heroísmo da personagem de Michael Douglas no confronto cultural entre o jingoísmo americano e uma visão estereotipada do Japão que mitiga o suposto arco de aprendizagem que o banal argumento de Craig Bolotin e Warren Lewis tanto se esforça para oferecer ao seu personagem principal.

Nick é um polícia arrogante, convencido e (possivelmente) corrupto, num conceito de anti-herói ainda relativamente fresco em 1989, incluindo uma corrida ilegal de motas logo após o genérico, autêntica arma de Chekov para a sequência final. É Michael Douglas no auge da sua húbris. Apesar dos seus defeitos, Nick é o herói inquestionável da fita. Contra tudo e todos, ignorando regras e procedimentos no Japão da mesma maneira que o faria no seu país. Persegue obsessivamente o seu alvo e consegue os seus objetivos simplesmente porque é melhor que todos os que o rodeiam. Quem sai por cima é Andy Garcia que, com um papel ingrato, consegue arrancar a dose correcta de simpatia do espectador antes do seu «sacrifício», naquela que é uma das cenas mais memoráveis do filme. Ken Takakura traz alguma dignidade ao contraponto policial japonês, Masahiro, e Yûsaku Matsuda, que rodou o filme sofrendo de um cancro terminal, é o típico vilão implacável e bidimensional que se espera num rotineiro policial de acção quando este não tem assinatura de um dos grandes realizadores da sua geração. O insulto final vem na forma de Kate Capshaw, no papel de Joyce, o habitual papel do interesse romântico do herói, aqui com direito ao gratuito beijo final depois das interacções entre os dois terem sido completamente desprovidas de qualquer tipo de frisson.

Apesar desta relíquia estar fortemente cristalizada no ano da sua produção, há qualidades e curiosidades que enriquecem a história desta longa-metragem. A fotografia de Howard Atherton, completada por Jan de Bont — o futuro realizador de Speed - Perigo a Alta Velocidade (1994) substituiu o director de fotografia original depois deste se despedir, frustrado com o trabalho no Japão — é deslumbrante. Ridley Scott ilumina muitos dos seus cenários com intensas luzes exteriores, pintando a tela com fortes contrastes e uma paleta de frios azuis e cinzentos, revelando novamente as suas influências do film noir. Além disso tira o melhor proveito do ecrã panorâmico (2.35 : 1), privilegiando os planos aproximados e os grandes planos nas cenas mais íntimas, contrariando a utilização habitual do formato e trazendo ao de cima o melhor dos seus actores. Na composição musical aparece Hans Zimmer, na sua primeira colaboração com Ridley Scott. No entanto, a sua música para Chuva Negra ainda está a anos luz dos temas marcantes que viria a compor no futuro, confundindo-se com uma qualquer banal banda sonora de filme de acção de sabor oriental da época.

Como muitos outros títulos de Ridley Scott — e poderia estar a resumir a experiência de ver Prometheus, o filme de 2012 do qual Alien: Covenant é uma continuação directa — se estivermos dispostos a ignorar as falhas do argumento e não nos importarmos com a insuficiente caracterização de personagens, vamos encontrar em Chuva Negra um filme deslumbrante e cheio de estilo, mas iminentemente descartável.

 

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